UM SHOW DE TÉCNICA E ESPORTIVIDADE
(Texto revisado e reeditado, extraído do Livro PEQUERI, do mesmo autor)
Uma límpida e ensolarada tarde
de inverno, naquele domingo festivo de julho de 1968. A pequena e bela
São Pedro do Pequeri vive o ápice do seu Primeiro Encontro dos
Pequerienses Ausentes, iniciativa do então prefeito, Júlio César Vanni, e
isto era um motivo a mais para o Estádio Valentino Ângelo Granato
achar-se tão alvoroçante e com tantos torcedores, entre os quais muitos
visitantes do Rio de Janeiro, gente bonita vinda das imediações, membros
das inúmeras e tradicionais famílias participantes do célebre evento.
Ouviam-se estrondos sucessivos de fogos, batucadas, gritos na plateia...
Transcorre o início do primeiro tempo da partida preliminar entre o
Esporte Clube Pequeriense e uma equipe convidada da região, cuja
procedência, peço mil desculpas ao leitor pelo lapso de memória, mas sei
que tratava-se de um time surpreendentemente forte, haja vista a
decepção do povo local, já amargando o placar de 1 x 0 em favor dos
visitantes. Tal situação, em absoluto, não era digerida e nem se
coadunava com um povo habituado a memoráveis conquistas. Muito menos em
tão jubilosa ocasião. Em um ponto isolado da torcida, as gargalhadas
que se ouviam a todo instante, eram por conta do único capaz de
dissimular um pouco a tensão do momento, o antológico personagem
pequeriense, Antonio da Chiquinha, poeta, professor, compositor, músico e
sobretudo palhaço. De longe e com tanta algazarra à volta, era
impossível captar o conteúdo daquele show à parte, mas podia-se avaliar
por sua performance coreográfica, dando seguidas cambalhotas no estreito
espaço entre a lateral do campo e o alambrado. O ex-treinador e
habitualmente sisudo, Ed Cortes Costa, que se encontrava por ali,
gritando com os jogadores e fumando um cigarro após o outro, por um
instante permitiu-se esquecer do placar e soltou uma de suas risadas,
que na verdade era um tipo bizarro de fenômeno sonoro, algo comparável a
um veículo desgovernado derrapando perigosamente numa pista cascalhada:
- Huá-huáááááááááááááááááááááááááá...
Mas o estresse de quem estava do lado de dentro
do gramado era crescente, como se pairasse no ar um prenúncio do que
estava para acontecer. Neste momento, o professor Zezé Vicente vai
deixando o campo pulando numa perna só, com muitas caretas de dor,
depois de ter seu tornozelo esquerdo maudosamente atingido pelo “número
dois” adversário. A partida está paralisada e o atual técnico, Ascânio,
sinalizava apressado, convocando o jogador Ranulpho Sales ,que já se
aquecia junto à linha lateral, para proceder a substituição. - Há que
ser bem frisada a questão do treinador oficial, pois bastava alguns
segundos de paralisação na partida e vários outros “técnicos” avulsos
também invadiam as quatro linhas para transmitir cada qual suas
enérgicas orientações aos atletas, aproveitando que, nessa ocasião, o
único obstáculo entre torcida e jogadores era um surrado conjunto de
caibros de madeira servindo de parapeito, suspensos por uma série de
estacas equidistantes, fincadas no chão ao longo de todo lado leste, já
com falhas em diversos pontos. Ou seja, não havia o menor sacrifício
para quem quer que fosse, entrar para onde estavam os times. Tanto não
estou exagerando, que Raimundo Peão já se encontrava próximo ao grande
círculo do campo, com várias cachaças no espírito, agitando um chicote
usado para adestrar animais, xingando aos gritos a mãe de alguém da
torcida local que o provocara. Por tratar-se de um personagem folclórico
da comunidade, isto era apenas um item a mais de diversão dentro do
ambiente comemorativo, exceto para seu filho, o Ailton, que entrou
correndo pelo gramado, com seu porte físico Tarzã, meneando a cabeça
seguidas vezes em completo constrangimento. Após insistentes argumentos,
lá vinha o Ailton puxando o pai pelo braço, enquanto Raimundo Peão
fazia força em sentido contrário, teimando em voltar, prosseguindo o
exclamatório em altos brados...
-É a mãe! Vai falá com a véia!!
Nervoso, o Juiz fazia uso do apito para tentar
esvaziar o campo e recomeçar o jogo, enquanto Primo Granato , fingindo
nem ouvir os apelos do árbitro, cochichava algo gravíssimo no ouvido do
jogador Ranulpho. Frisa-se o “gravíssimo”, pois as palavras do homem
eram acompanhadas por gestos que ele fazia com a inseparável bengala,
simulando uma espada pontiaguda atravessando a barriga de alguém.
Ranulpho o ouvia, movendo afirmativamente a cabeça, como o discípulo que
acata as ordens do mestre sem contestar.
Enfim o jogo é reiniciado. Ainda inconformado com esse
maldito placar e com a apatia revelada pela equipe da qual já fora o
técnico oficial alguns anos antes, o temperamental e espalhafatoso
italiano, Primo Granato, vai agora caminhando enigmático junto à lateral
do campo, no seu conhecido jeito de coxear a perna deficiente,
auxiliado pela bengala. Ele era de baixa estatura, mas bastante robusto,
destemido, usava o timbre possante da voz como uma de suas armas de
intimidação durante as encrencas, com as quais era bem familiarizado.
Seu formato craniano, típico de todos os homens daquela numerosa e
tradicional família de imigrantes, estava oculto por um chapéu de
feltro, e os óculos de grau de lentes grandes completavam o autêntico
perfil de um capo da Cosa Nostra. Ele acabara de decidir consigo mesmo,
sem pedir opinião a mais ninguém, optar por uma tática extrema que, no
seu tempo como treinador, costumava reverter o placar em questão de
minutos, quase como numa intervenção sobrenatural do padroeiro São
Pedro. (Tudo isto ele me contaria pessoalmente, mais tarde). Primo
Granato caminhou sem pressa pela lateral até alcançar o lado norte do
campo, posicionando-se bem atrás do goleiro adversário.
A partida acabara de ser novamente paralisada e o
ambiente entre as equipes chega próximo à ebulição. Ranulpho Sales,
que parece ter entrado em campo com um único propósito, no primeiro
lance em que se defrontou com o tal “número dois” que tirara o Zezé da
partida, partiu correndo na direção dele, mais lembrando um caminhão na
banguela, os dois colidiram peito a peito com tal impacto que o jogador
visitante rolou inúmeras vezes no chão, indo parar embaixo do alambrado.
Companheiros de equipe correram em bloco para cima do árbitro, exigindo
expulsão, incluindo o goleiro, fato que obrigou o homem da bengala a
adiar um pouco a execução do seu plano secreto. Como já era cena normal
em todos os momentos de interrupção do jogo, Sebastião Granato, que já
atuara no E.C. Pequeriense algumas décadas antes, e, segundo diziam os
antigos, fora dono de um dos chutes mais potentes da história, já se
encontrava próximo da meia lua da área passando um sermão técnico ao
jogador Galo:
- Cê tá dando espaço pro
adversário dominar a bola! Isso não pode acontecer, meu filho!! Dá duro
em cima dele!!
Em um outro ponto ouvia-se a
voz esbravejante do técnico, esclareço, do técnico oficial, Ascânio
Gouveia Matta, esculachando o centroavante, que hoje estava como que se
arrastando pelo campo:
Quer passear? – Gritava Ascânio - Então vai pra casa, pega a namorada... Aqui não !! Aqui não!!
Evidentemente, esse quadro de sonolência
generalizada que assolava a equipe, devia-se ao grande baile de gala no
Clube Social Pequeriense, animado pela orquestra El Dorado, como parte
dos eventos comemorativos, baile este que acabara por volta das quatro
da madruga e contou com a presença empolgada da maioria dos atletas.
Apenas dois minutos após a bola voltar a rolar,
um descuido infantil da defesa local permite aos visitantes retomarem a
bola e fazerem o seu segundo gol, e isto era simplesmente,
absurdamente, completamente inadmissível, ante à celebração do Primeiro
Encontro dos Pequerienses Ausentes. O defensor Rauphinho discute
irritadíssimo com o goleiro Paulinho da Luzia, cada qual querendo jogar a
culpa do fracasso um no outro.
- Assim não dá, uai! - acusava Rauphinho, desesperado. - Ocê faz que sai mas não sai, uai!!
Para complicar sobremaneira as coisas, no lance
do gol, houve a impressão de que o atacante deles estava em posição de
impedimento. Considerando que, nesse tempo, os jogos de futebol, mais
especificamente esses amadores, de cidades de interior, ainda
representavam, única e tradicionalmente, o genuíno amor à camisa, aquele
belo e telúrico romantismo que hoje já cedeu lugar às politicagens e
interesses financeiros, nesse tempo, o mais importante mesmo, acima de
tudo, era a vitória, conquistada com um suor procedente do coração. Não
se cogitava lucros, nem fama. Queria-se a vitória, pela honra de se
estar defendendo a terra das raízes, da família e dos amores.
Enquanto os protestos e xingos ferviam entre a torcida
pequeriense, atrás da baliza norte do Estádio, Primo Granato sentia-se,
mais do que nunca, com o espírito imbuído naquele romantismo citado no
parágrafo acima, disposto a colocar em prática imediatamente, a sua
técnica de São Pedro. Ele mal esperou o goleiro retornar das
comemorações do gol, e já foi desfechando:
-
Olha aí, meu rapaz: Eu, se fosse você, dava uma colaborada aí conosco.
Veja só: A cidade está em festa, todo mundo querendo comemorar... basta
ocê deixar entrar uns golzinhos aí e fica tudo bem. Depois procura a
gente lá fora, que ocê não vai se arrepender...
Ouvindo isto, o goleiro voltou-se, abruptamente, ainda sem acreditar
no que acabara de ouvir. Afinal, ele também amava seu time, suas
raízes... Embora as primeiras palavras tenham sido ditas num tom
surpreendentemente amistoso, agora, ao encarar o olhar penetrante por
trás daqueles óculos de grau, o goleiro chega a sentir um calafrio. Tal
sensação virou pavor propriamente dito, quando o homem apontou-lhe a
bengala na direção do rosto, e completou, com aquela sua voz de um grave
cortante, agora num tom que já não lembrava outra coisa senão o rosnado
de um doberman pronto para o bote fatal:
- Foi
isso mesmo que ocê ouviu, seu fiedapuuuuta!. Isso, se quiser ir embora
pra casa hoje, direitinho, sem nenhum problema...
Primo Granato executou sua tática de São Pedro e retornou tranquilo
pelo mesmo caminho, junto à lateral, podendo reconhecer ao longe o
Piquitito dentro do campo, gesticulando aflito na tentativa de acalmar
seu filho César Calzavara, que atuava na defesa e estava a fim de
agredir o juiz por causa do impedimento não marcado. Para o leitor não
pequeriense, cabe esclarecer que, César Calzavara, com seu biótipo de
uma robustez hercúlea, era como um tanque blindado, uma máquina de
agressividade e encrencas, não distinguindo local nem ocasião. Ao ser
encarado pelo árbitro, que simulava levar o apito à boca para
expulsá-lo, César apontou-lhe o dedo, mesmo tendo o pai e o irmão
Washington agarrando-lhe fortemente pela cintura:
- Se me expulsar, eu te pego depois lá fora! – A atitude do grandalhão
tinha pleno respaldo da torcida local, em especial do exaltado grupo de
solteironas comandado por Léa Micheli e Araci Germano.
O jogo mais uma vez recomeça, e as disputas de bola chegam a lembrar um combate medieval.
- Isso não tá me cheirando bem... – Cochicha, junto
ao alambrado, o jogador titular Roberto Secundino, no ouvido do
companheiro Sinval Sales, como numa profecia.
-
Recua um pouco, meu filho!! Tá muito adiantado!! - grita novamente
Sebastião Granato em desespero, ao ponto de estar com um pé do lado de
dentro do campo. Nesse instante, a bola cai outra vez no pé do já
visado “número dois” adversário, que corre e prepara um lançamento para o
setor esquerdo, mas não chega a fazê-lo porque no seu caminho surge um
pé de chuteira, que era de César Calzavara, que o atinge logo abaixo do
umbigo, mandando-o para o chão como quem fora atingido pelo trem de Mar
de Espanha.
Agora não há mais argumentos nem
espírito para protestos ou reclamações. Cinco ou seis jogadores
visitantes avançaram ferozes para cima do agressor, confrontados por
outros sete ou oito pequerienses que também partiram na mesma direção, e
em segundos já eram os vinte e dois brigando e mais os torcedores de
ambos os lados que começaram a invadir o gramado; havia agora homens de
terno e gravata batendo e apanhando entre os uniformizados; Paulinho
Vanni arrancava ripas da cerca do quintal de Zé Granato e as distribuía
aos companheiros combatentes em meio ao tumulto de xingatórios,
pontapés de um lado, socos e empurrões de outro, tapas, chutes, tombos;
o grupo de Léa Micheli partia em disparada, mas no rumo do portão do
estádio, no mesmo instante em que Seu Modesto recolhia mais que depressa
a sua cadeirinha cativa e sumia pelo quintal adentro; Bastião Granato
afastava-se do centro do conflito, já sem os óculos e com um ferimento
sangrando no alto da careca; seu irmão, Primo Granato, acabara de
quebrar a bengala na cabeça do técnico adversário, e com a metade
pontiaguda que lhe sobrara, agora queria a todo custo espetar a mulher
desconhecida que invadira o campo e o atingira pelas costas com um
objeto cortante, precisando a interferência apavorada do seu filho
Murilo Granato, que gritava para seu primo grandalhão:
- ô Ronaldo! Ajuda a controlar papai aqui, senão...
- Deixa ele vir!! Solta ele!- Esses eram
gritos do treinador Ascânio, segurando na mão uma ripa e já sem nenhum
botão na camisa. Houve um estrondo acidental de foguete, causando uma
fumaceira nas proximidades do vestiário, misturando-se cheiro de pólvora
queimada ao forte odor de óleo massageador, e nada aplacava a ira de
Primo Granato, que há tempos já não sabia do paradeiro do chapéu nem dos
óculos; seus impropérios agudos sobressaíam em meio às centenas de
vozes exaltadas falando e gritando ao mesmo tempo. Ele fazia referências
ao lutador verdugo do tele-cath:
- Deixa esse fiedaputa vir que eu faço co’ele igual o caveira!!... Pode vir!
À parte da confusão, Roberto Secundino, no pique de
sua forma física e técnica, já uniformizado com camisa e meias
vermelhas, calção branco, só faltando as chuteiras, zanzava inconformado
de um lado para outro, reclamando indignado com os companheiros
titulares, Totõe Pavão e o goleiro Carrapato, todos já preparados para a
grandiosa partida principal. E pensar que o craque Roberto planejava um
show de bola especial nesse dia, dedicado à sua musa eleita que estava
na torcida, a bela Luíza do Zózimo, cujo tio Juquinha Sales se afastara
da briga todo suado e escabelado, depois de ter dado e levado inúmeros
bofetões, achando graça de si mesmo, exibindo o enorme rasgo na camisa
novinha que estreava nesse domingo. Mas no campo a pancadaria
continuava:
- Você sabe com quem cê tá falando?? Eu posso lhe prender!!
Eram palavras ameaçadoras de um tenente da 4ª. GAC
de Juiz de Fora para um desconhecido que o ofendera, discurso que foi
violentamente interrompido com um pé-de-ouvido que o tenente recebeu por
trás, sem ter tido condições de identificar o agressor, golpe que o
arremessou desorientado de encontro a Ronaldo Matta que sobressaía-se na
multidão por causa da estatura, tentando em vão acalmar os ânimos,
justamente quando um novo foco de pancadarias surgiu nas proximidades do
vestiário, e era outra vez Primo Granato agredindo alguém com seu toco
de bengala, agora sobrando para Antonio Matta tentar detê-lo, e eram
tantos solavancos e safanões, que o relógio de pulso de Antonio Matta
transformou-se num objeto inútil pendurado em seu braço.
O conflito só deu sinais de acabar quando a voz exaltada e
revoltada do chefe da delegação visitante, entre xingos e gritarias,
anunciava a retirada do seu pessoal do estádio e daquela cidade, para
todo o sempre, pondo assim um fim inesperado naquilo que deveria ser
mais um grande item festivo do Primeiro Encontro dos Pequerienses
Ausentes. Ao lado de Luiz da Rosa e do ex-prefeito Luiz Bastos, o atual
chefe do município, Júlio Vanni, contemplava o acontecimento como se
estivesse presenciando a demolição de um valioso patrimônio histórico.
Assim também reagiam aqueles que ali estavam a fim de assistir algo mais
próximo do civilizado. Foi realmente um evento modelo, um grande show
de técnica e esportividade.